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7/7/2010 - 14:21 - O reversor da moeda
Autor: Orlando Caliman
Dizem que as crises, e estamos falando aqui de crises de natureza econômica de grande intensidade e abrangência, tendem a produzir mecanismos depurativos assim que se inicia o processo de reconstrução de um novo “estado” de normalidade. Eles atuam, sobretudo, sobre as crenças e princípios filosóficos que orientam as políticas econômicas e sociais dos países afetados, podendo mudar, inclusive, as formas como se dão as relações entre estado e sociedade. E é isso que está acontecendo no momento na Europa unificada. Pressionados pela crise, os “estados” europeus se deparam com um dilema que poderá levá-los à decretação da morte do chamado “estado providencial” – ainda sobrevivente -, que hoje, de alguma forma, protege o cidadão, através de políticas voltadas ao bem estar social.
A crise dos anos trinta, chamada também de a grande depressão das economias capitalistas, que gerou as condições objetivas para a segunda grande guerra, também produziu um novo “Estado”. E isso aconteceu logo após o fim do conflito, quando passaram a prevalecer políticas pautadas pela busca da estabilidade econômica e do pleno emprego. Dois objetivos que visavam dar tranqüilidade e melhores condições de vida para os cidadãos. Assim nasceu o “Estado do bem estar social”, o “welfare state”. E foram os governos europeus os que mais se entusiasmaram com a novidade, principalmente pelo fato de os ajudarem na administração e controle das pressões sociais.
O grande desafio que se coloca hoje para Europa, num momento de fragilidade fiscal dos governos ou quase impossibilidade de sustentação dos níveis atuais dos gastos públicos, está em como lidar com a forte cultura da “segurança social”. Diferentemente de alguns outros países, como o próprio Estados Unidos e também a Inglaterra, que abandonaram as receitas do Estado do bem estar social, privilegiando medidas liberais, principalmente a partir da década oitenta, os países europeus, até por pressões internas, principalmente de sindicatos, mantiveram ou mesmo fizeram até crescer a proteção social.
Como explicar, por exemplo, para a população da Grécia que os salários dos funcionários públicos devem ser rebaixados, que as pensões pagas também, e que o cidadão para se aposentar deverá trabalhar por mais tempo. E, além disso, tudo, de que a sociedade deverá arcar com o peso de mais impostos. Tudo isso, para cobrir o déficit acumulado do governo e evitar, em última instância, que a crise se alastre para toda a Europa e o mundo. Situações idênticas são encontradas e outros países da Europa.
O grande temor do momento é de que se faça prevalecer a ortodoxia no lidar com questões tão complexas. Mas, é o que parece apontar as sugestões produzidas no último encontro do G-20; grupo de países mais desenvolvidos acrescido de grandes países emergentes, dentre os quais está o Brasil -. A convergência é para cortes drásticos dos gastos públicos como forma de reduzir os déficits. O problema é que se todos os países em situação de déficit crônico atuarem na mesma direção, teremos um evento sincronizado de redução da demanda agregada em grande escala. E nesse caso, é fácil deduzir o que poderá acontecer: recessão. Recessão significa redução da atividade econômica, menos emprego, menos impostos etc. É o reverso da moeda: Pode-se salvar a moeda – o Euro -, mas o seu reverso pode custar caro para a sociedade.
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