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23/2/2010 - 9:49 - Garantia do Futuro
Autor: Orlando Caliman
Numa análise mais ampla não é difícil perceber grandes diferenças entre o comportamento de um cidadão médio americano e de um japonês, quando a questão em discussão é a relação entre consumo e poupança. Enquanto o primeiro sempre foi visto como consumista compulsivo, o segundo, ao contrário, porta-se costumeiramente pautado na precaução e na parcimônia. Naturalmente hábitos culturais adquiridos em trajetórias históricas diferentes justificam as distâncias. Em síntese, os americanos são “gastões”, ou pelo menos foram até a última crise; e os japoneses, os poupadores.
E o brasileiro, como se comporta diante do dilema poupar ou gastar? Certamente, em nenhum dos extremos. O brasileiro não tem um histórico de gastador, como também não o tem como poupador. Não podemos perder de vista que a nossa grande desigualdade de renda reduz nossa capacidade de gerar poupança. Mesmo assim, no geral, observada a economia como um todo, a soma de todas as poupanças – pessoas, empresas e governos - nunca alcançamos o montante suficiente para atender as necessidades – ou seja, o total dos investimentos que o Brasil precisa para crescer de forma sustentável -. O país sistematicamente tem que recorrer a fontes externas para cobrir as lacunas. Essa, inclusive, é uma das razões de termos que manter juros internos competitivos para atrair mais dinheiro externo.
O hábito de poupar, muito provavelmente, reflete o comportamento das pessoas em relação aos seus respectivos futuros. As pessoas poupam com vistas a garantir um determinado montante de recursos no futuro, logicamente, com algum ganho adicional. Quando esse futuro é colocado bem à frente no tempo, o resultado do ato de poupar pode estar atrelado à produção de um fluxo de recursos para fazer face às necessidades, por exemplo, durante a velhice; funciona como complementação da aposentadoria.
Quanto a esse último hábito, ao que nos parece, o brasileiro ainda não aparece numa situação muito confortável. São poucas aquelas pessoas que planejam o fluxo de dinheiro adicional na aposentadoria, projetando suas vidas no futuro. Talvez faça parte da cultura do brasileiro – cultura vista como uma construção histórica -. É a forma de ele vê, percebe e administra o tempo. Na versão americana, por exemplo, “o tempo é dinheiro” (time is Money). Nesse caso, o tempo adquire um sentido objetivo, concreto. É visto também como garantia do futuro. Daí o fato de ser comum encontrar famílias americanas que planejam as vidas financeiras dos filhos desde o nascimento até a idade produtiva. Para isso elas fazem investimentos ou aplicam no mercado financeiro. Aliás, infelizmente, a maioria delas perdeu dinheiro com a crise.
Segundo uma pesquisa feita pelo Instituto Futura no mês de Janeiro deste ano, a maioria dos capixabas não tem o hábito de planejar as suas vidas financeiras após parar de trabalhar. O percentual desses chega a 70%. A maioria prefere ficar mesmo na dependência da aposentadoria oficial, mesmo admitindo que seja insuficiente para garantir uma vida mais tranquila, no futuro. Por outro lado, apenas 8,6 % confirmaram dispor de planos de previdência privada. Talvez estejamos numa situação até melhor do que no passado. Mesmo assim, temos muito a caminhar.
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