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25/1/2010 - 9:50 - De olho na China
Autor: Orlando Caliman
Dois episódios perturbaram o ambiente econômico na semana passada, provocando quedas sucessivas nas bolsas ao redor do mundo. A queda do Índice Bovespa, por exemplo, superou 5% em apenas dois dias, frustrando quem acreditava que brevemente atingiria o seu maior nível alcançado antes de crise global. O primeiro deles veio da economia americana e foi resultado de uma fala mais contundente de Barack Obama na direção de uma maior regulamentação do sistema americano. O que já era esperado, mas nunca desejado pelos bancos. Já o segundo, teve origem na China, ou mais precisamente no impacto do crescimento além do esperado da sua economia.
Enquanto o primeiro movimento aparece mais como uma ameaça aos “adoradores” do Wall Street do que algo que venha a mexer diretamente com a economia real americana e mundial, o segundo, ao contrário, se apresenta como uma ameaça mais imediata ao que poderá acontecer com a economia que mais cresce no mundo e que tem maior peso relativo na recuperação da economia mundial. Existe o temor de que a China tenha que antecipar medidas de política econômica que segurem o ímpeto do crescimento da sua economia, afetando assim ganhos esperados dos investidores.
Em ambos os casos, o que as bolsas estão fazendo é precificar, no presente, expectativas em relação ao futuro mais próximo. É natural que nesse jogo de apostas em relação ao que possa acontecer nos mercados futuros, sempre há espaço para ansiedades e consequentemente para comportamentos imprevisíveis e até irracionais. A boa notícia de um crescimento de 8,7% da economia chinesa – a expectativa era de 8% - ao invés de levantar o astral dos investidores, gerou apreensões quanto à sustentabilidade da tendência. Existe certo temor de que a economia chinesa já atingiu o patamar de saturação do lado da oferta, a partir do qual não haveria mais espaço para o crescimento dos investimentos produtivos, pelo menos no ritmo que vem acontecendo. A percepção que parece predominar é a de que se mantido o pé no acelerador da economia se está alimentando uma nova bolha especulativa, a “bolha chinesa”, que poderá estourar mais adiante.
A luta que Obama tem pela frente é bem diferente, e tem um sentido de antecipação de potenciais problemas que possam ocorrer caso não se tomem devidas medidas em relação ao ainda permissivo mercado financeiro americano. O forte contraste entre o estado geral da economia, revelado principalmente pelo fraco desempenho do emprego, e os lucros alcançados principalmente pelos maiores bancos no mercado financeiro – os mesmos que foram salvos com o dinheiro do cidadão -, em grande parte frutos de operações especulativas, mostra claramente o desafio a ser enfrentado. Obama tem dois objetivos claros: reduzir o poder dos bancos de criar riquezas fictícias a partir de seus caixas livres – fontes para especulação -, e fazer uma reestruturação do sistema bancário, limitando o tamanho dos bancos e criando um imposto pagar o que já foi consumido de recurso público para salvá-los.
Mas, há uma leitura sobre os últimos movimentos das bolsas que também não pode ser desprezado. Que é a de que estas andaram um tanto quanto descoladas da economia real, precificando para cima as expectativas. Ou seja, elas se apresentaram mais eufóricas do que a realidade. Agora, são esperados os ajustes.
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